Portugal enfrenta uma crise de habitação. Os preços subiram mais de 17 por cento em termos homólogos no terceiro trimestre de 2025. O preço médio por metro quadrado, a nível nacional, atingiu 2.111 euros. Em Lisboa, esse valor ultrapassa os 6.900 euros. Jovens profissionais adiam a independência. Famílias lutam para encontrar casas adequadas.
É neste contexto que a abordagem de Luís Horta e Costa merece escrutínio. O cofundador da Square View tem falado publicamente sobre a acessibilidade e a sustentabilidade como pilares do seu trabalho. Mas pode um promotor que atua no segmento premium contribuir para resolver um problema que afecta sobretudo quem não consegue aceder a esse mercado?
O Paradoxo do Promotor Premium
A Square View investe em propriedades de alto perfil em Lisboa e nos arredores. O seu portefólio inclui um investimento de desenvolvimento de aproximadamente 260 milhões de euros e mais de 500 unidades residenciais futuras. São números que indicam um operador de escala no segmento médio-alto e no alto do mercado.
O projecto de Melides, contudo, introduz uma nuance. Horta e Costa descreveu-o como voltado a habitações acessíveis, não ao segmento de luxo. A utilização de construção modular e de materiais sustentáveis, como a madeira, visa, segundo a filosofia da empresa, reduzir os custos de construção e tornar os preços finais mais competitivos.
Os Limites do Modelo
A questão é de escala. Mesmo que o projecto de Melides ofereça preços inferiores aos dos resorts de luxo vizinhos, as habitações em comunidades costeiras do Alentejo não respondem ao problema central. Famílias portuguesas que precisam de casas em centros urbanos perto dos seus locais de trabalho.
Luis Horta e Costa não reivindica a resolução da crise habitacional. O que defende é que a sustentabilidade e a eficiência construtiva podem pressionar os preços para baixo em determinados segmentos e que os promotores privados têm um papel a desempenhar na introdução de práticas que reduzam os custos de construção.
O governo português tem tentado abordar o problema por meio de programas como o Mais Habitação e de incentivos fiscais a senhorios que ofereçam rendas moderadas. As novas restrições ao Alojamento Local visam redirecionar imóveis para o mercado de arrendamento de longa duração. Mas o impacto destas medidas tem sido modesto até agora.
O Argumento de Horta e Costa
A posição de Horta e Costa é pragmática. O mercado privado pode contribuir para a acessibilidade por meio da inovação nos métodos construtivos, e não por reduções voluntárias de margem. Se a construção modular e a madeira reduzirem os custos em 20 ou 30 por cento em relação ao betão convencional, parte dessa poupança pode ser transferida para o preço final.
É um argumento com mérito técnico. A questão é se a escala dos projectos da Square View é suficiente para influenciar tendências de mercado mais amplas, ou se permanece um nicho dentro de um sector que continua a operar, majoritariamente, com métodos tradicionais e margens elevadas.